Opinião: Governança do Palmeiras entra em xeque com Lamacchia no Vasco e debate vai além do conflito
A SAF de um rival carioca faz com que o Palestra ganhe um problema institucional para resolver antes que ele exista O Vasco ainda não virou oficialmente um pr...
A SAF de um rival carioca faz com que o Palestra ganhe um problema institucional para resolver antes que ele exista
O Vasco ainda não virou oficialmente um problema do Palmeiras. Mas já virou um teste para a SEP. A empresa de Marcos Lamacchia venceu o leilão pela SAF vascaína, e a operação ainda depende das etapas previstas no clube carioca e da análise dos órgãos competentes. O detalhe é que Marcos é enteado de Leila Pereira e filho de José Roberto Lamacchia, integrante do Conselho Deliberativo palmeirense. Futebol brasileiro tem dessas ironias: às vezes, o adversário chega pela tabela. Outras vezes, pela árvore genealógica.
Antes que a discussão descambe para conclusões apressadas, convém colocar os pingos nos is. Não há, neste momento, fato que permita afirmar que o Palmeiras tenha sido beneficiado ou prejudicado por qualquer operação envolvendo o Vasco. Também não existe base para transformar parentesco em prova de conflito de interesse. A Anresf analisa justamente essa questão. O problema institucional, portanto, não é provar uma irregularidade que não está demonstrada, porém, perguntar se as regras do Clube são suficientemente claras para impedir que uma situação potencialmente sensível se transforme em problema concreto.
A oposição percebeu a oportunidade e colocou o assunto na mesa. O Ocupa Palestra cobra medidas e questiona a permanência de José Roberto Lamacchia no Conselho, com base em sua interpretação do Estatuto do clube. É uma posição política interna, não uma sentença. Mas seria confortável demais tratar tudo como manobra de oposição e fechar a gaveta. A vida costuma cobrar juros altos de quem prefere arquivar perguntas incômodas. A discussão pode ter nascido na política Alviverde, mas já não pertence somente a ela.
Até porque a Anresf também entrou em campo. A entidade abriu procedimento para analisar possível conflito e adotou medidas cautelares restringindo relações entre Vasco, Palmeiras e Crefisa em áreas como negociações de atletas, operações financeiras, compartilhamento de estruturas, profissionais e informações sensíveis. Isso não significa que o conflito esteja comprovado. Significa que existe uma preocupação suficientemente relevante para justificar uma análise preventiva. E prevenção, convenhamos, é uma palavra que costuma ser lembrada no futebol depois que alguém já está tentando apagar o incêndio.
O que o Verdão precisa ficar atento sobre a possível SAF vascaína
A questão central, então, não deveria ser “há conflito?”. Essa resposta precisa seguir o devido processo. A pergunta mais interessante é outra: quais mecanismos o Palmeiras tem para garantir que um eventual conflito nunca aconteça? Parece uma diferença pequena. Não é. Um clube profissional não pode depender apenas da boa-fé de pessoas, da confiança entre famílias ou da promessa de que cada um saberá separar as coisas. Governança existe justamente porque instituições não podem funcionar na base do “deixa comigo”.
Informação é parte desse patrimônio. Mercado, scouting, contratos, planejamento esportivo, avaliações internas, negociações e decisões estratégicas não são conversa de corredor. São ativos competitivos. Não há acusação de que alguém tenha usado ou tenha acesso indevido a qualquer dado da SEP. Mas também não faz sentido fingir que a proteção dessas informações perdeu importância porque os envolvidos são pessoas conhecidas entre si. Se Palmeiras e Vasco passarem a ter relações empresariais ou esportivas mais próximas, a fronteira terá de ser objetiva. Quanto menos depender de interpretação pessoal, melhor.
O Conselho Deliberativo também entra nessa equação. A discussão sobre José Roberto Lamacchia não deveria ser tratada como um plebiscito entre “confia” e “não confia”. Há uma questão estatutária que precisa ser analisada. Há uma realidade empresarial nova que precisa ser considerada. E há uma pergunta institucional que não desaparecerá porque alguém prefere não fazê-la. Se o Estatuto é suficiente, que se explique por quê. Se houver necessidade de interpretação ou ajuste, que isso também seja discutido. O que não parece razoável é descobrir a regra depois de descobrir o problema.
Também seria um erro transformar a família Lamacchia em personagem de novela. Família é uma coisa. Palmeiras é outra. Vasco será outra. Negócios privados pertencem aos seus donos, instituições esportivas pertencem aos seus associados e torcedores. É justamente por isso que as fronteiras precisam ser mais rígidas, não mais flexíveis. Leila não pode administrar o Verdão pensando no Vasco. Marcos não poderá comandar o Vasco pensando no Palestra. Contudo, o Maior Campeão do Brasil não pode construir sua proteção institucional contando apenas com a certeza de que todos saberão exatamente onde termina uma relação e começa outra.
Um teste para a administração da SEP
Há uma ironia maior nisso tudo. O Palmeiras passou anos defendendo profissionalização, organização e modernização de sua estrutura. Pois bem. A vida real decidiu aplicar uma prova prática. Governança não é uma palavra bonita em apresentação corporativa. É aquilo que sobra quando pessoas próximas precisam tomar decisões potencialmente conflitantes. É nesse momento que aparecem os protocolos, os impedimentos, as barreiras de informação e a independência das instituições. Falar de governança quando tudo está tranquilo é fácil. Difícil é testá-la quando o assunto chega à própria sala.
Não é preciso acusar ninguém para fazer uma cobrança legítima ao Palmeiras. Se a aquisição do Vasco for concluída, a família Lamacchia terá uma relação ainda mais direta com dois clubes importantes do futebol brasileiro. Isso não prova irregularidade, não determina conflito e não permite antecipar qualquer desfecho. Mas muda o ambiente. E ambientes novos exigem regras claras. A pergunta mais incômoda talvez seja a mais simples: o Palmeiras está preparado para garantir que ninguém precise desconfiar das fronteiras entre família, negócio e clube? Se estiver, ótimo. Agora falta mostrar como.