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Abel Ferreira tem bom retrospecto no Derby, mas os números não contam tudo

Abel enfrentou diferentes treinadores corintianos, e cada mudança exigiu novas respostas. Mais do que repetir uma fórmula, o desafio está em reconhecer quand...

Abel Ferreira tem bom retrospecto no Derby, mas os números não contam tudo
Abel Ferreira tem bom retrospecto no Derby, mas os números não contam tudo (Foto: Reprodução)

Abel enfrentou diferentes treinadores corintianos, e cada mudança exigiu novas respostas. Mais do que repetir uma fórmula, o desafio está em reconhecer quando o plano inicial precisa ser alterado

Confesso que tenho certa desconfiança de estatísticas apresentadas como atestado de competência. No futebol, nove vitórias viram argumento de autoridade, enquanto cinco derrotas costumam ser discretamente encaminhadas para o esquecimento, ou para o alarde total, dependendo do clima do clube. Antes do Derby deste domingo (11), o Palmeiras divulgou que a comissão técnica de Abel Ferreira havia enfrentado o Corinthians 23 vezes, com nove vitórias, nove empates e cinco derrotas. É um retrospecto favorável. Mas, se números resolvessem sozinhos as discussões sobre futebol, a profissão de comentarista seria substituída por uma calculadora.

O que me interessa nessa conta não é exatamente o saldo positivo, mas aquilo que pode existir por trás dele. Abel não construiu sua trajetória no Palestra apenas vencendo partidas. Construiu-a fazendo equipes competitivas em diferentes circunstâncias, inclusive naquelas em que o adversário parece ter preparado uma festa e esquecido de convidar o Verdão para jogar. No Derby, essa capacidade de competir merece uma análise menos preocupada em distribuir medalhas e mais interessada em descobrir como o treinador organiza o time para enfrentar um rival que conhece tão bem.

Os nove empates, aliás, são uma boa porta de entrada. Não porque empatar clássico seja necessariamente uma virtude, mas porque o resultado, isoladamente, não explica o comportamento de uma equipe. Há empates em que a SEP controla os espaços, limita o adversário e fica a um detalhe de vencer. Há outros em que precisa resistir, corrigir a rota e agradecer ao apito final. Colocar tudo no mesmo saco é uma forma bastante eficiente de dispensar o trabalho de análise. Eu, particularmente, não gostaria de receber salário para fazer isso.

A primeira característica que observo em Abel é a disposição para adaptar o plano de jogo ao problema que tem diante de si. Sua ‘equipa’ pode pressionar a saída rival, proteger a região central ou acelerar as transições quando encontra espaço. A escolha depende dos jogadores disponíveis, do desenho adversário e do momento da partida. Contra o Corinthians, essa leitura ganha importância especial: perder a bola em uma zona perigosa pode custar caro, mas recuar demais também significa entregar ao rival a possibilidade de crescer no jogo. A prancheta, como se vê, não oferece almoço grátis.

Desta forma, a discussão sobre segurança defensiva chama atenção. Há quem enxergue prudência e imediatamente procure um adjetivo pouco elogioso para o treinador. Eu prefiro perguntar o que essa prudência produz. Se o Palmeiras protege a entrada da área, mantém os setores próximos e consegue recuperar a bola em condições de atacar, a organização defensiva não é uma renúncia ao jogo ofensivo. É parte dele. O problema aparece quando a proteção se transforma em passividade e o time deixa de ameaçar. Entre uma coisa e outra existe uma fronteira que os números de vitórias e derrotas não conseguem desenhar.

Não há receita de bolo e sim capacidade de responder ao dinamismo do Derby

Também não compro a ideia de que Abel tenha uma fórmula universal para o Derby. O retrospecto inclui adversários comandados por treinadores com propostas distintas, de Vítor Pereira a Ramón Díaz, passando por Dorival Júnior e Fernando Diniz. Cada um trouxe problemas diferentes, e o português precisou responder a eles. Em alguns confrontos, o Palmeiras encontrou espaço para acelerar; em outros, precisou disputar um jogo mais amarrado. O mérito de um treinador não está em repetir movimentos como quem segue uma receita de bolo, mas em reconhecer quando a receita deixou de funcionar.

A temporada passada serve como lembrete de que essa história não comporta triunfalismo. O Corinthians venceu o Palmeiras na final do Campeonato Paulista e também eliminou o rival nas oitavas de final da Copa do Brasil. Foram dois golpes importantes, justamente porque ocorreram em disputas nas quais cada detalhe pesa mais do que a média de uma temporada inteira. Em 2026, o Verdão venceu o encontro pelo estadual por 1 a 0 e empatou sem gols no primeiro turno do Brasileiro. O retrospecto recente mostra capacidade de reação, mas não autoriza ninguém a tratar o clássico como uma questão resolvida antes da bola rolar.

Há, ainda, uma circunstância que torna o confronto deste domingo particularmente curioso: o Corinthians chega depois da demissão de Fernando Diniz, com William Batista, treinador do sub-20, no comando interino. Abel, portanto, precisa preparar o Verdão para um adversário cuja organização pode mudar com a troca de comando. O técnico português enfrentará o 11º treinador diferente do rival em sua trajetória no Derby. É uma coleção respeitável de oponentes e uma demonstração da instabilidade no Parque São Jorge.

A estratégia do risco calculado no Palmeiras

A mudança no banco corintiano exige atenção porque o Alviverde não pode confundir instabilidade adversária com facilidade automática. Uma equipe em crise pode oferecer espaços, mas também jogar com linhas mais baixas, simplificar a saída de bola e apostar em transições. O desafio de Abel será identificar o que o Corinthians pretende fazer e ajustar a pressão sem abrir corredores para os contra-ataques. Se o Verdão adiantar suas linhas, precisará coordenar a perseguição à bola; se optar por esperar, terá de encontrar maneiras de sair da pressão e ocupar o campo ofensivo. Não existe estratégia sem risco. Existe, isso sim, risco calculado e risco tomado por distração.

Para entender Abel Ferreira

Considero o retrospecto de Abel um indício de consistência competitiva, não uma prova definitiva de superioridade tática. Nove vitórias, nove empates e cinco derrotas mostram que a SEP costuma encontrar maneiras de disputar o Derby em condições favoráveis ou não, mas não revelam, por si sós, como isso acontece. Para entender o treinador, precisamos olhar para sua atitude na beira do gramado, respondendo a desafios postos, bem como propondo saídas inteligentes. É nesse terreno que a análise deixa de ser contabilidade e começa a virar futebol.

O Derby oferece uma pergunta mais interessante do que saber se Abel tem bom retrospecto contra o Corinthians. Quero descobrir se o Maior Campeão do Brasil consegue impor suas condições sem cair na armadilha de jogar exatamente a partida que o rival deseja. Se conseguir, o número de vitórias poderá crescer como consequência de um plano bem executado. Se não conseguir, nem o retrospecto mais simpático evitará a cobrança. Afinal, clássico não respeita currículo, estatística ou coluna de opinião. Se respeitasse, nós jornalistas poderíamos publicar a escalação, fechar o computador e ir almoçar antes do apito inicial.